quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Crônica: A cidade muda



Há vinte anos saí da minha pequena cidade para tentar uma vida melhor numa metrópole. Deixei para trás meus pais e quatro irmãos. No começo ainda escrevia cartas, depois o tempo e a ganância tomou conta de mim e perdi o endereço. Minha mãe era analfabeta e eram os vizinhos quem liam minhas cartas. Ela ficava toda feliz e ansiosa por saber que um dia prometi vir buscá-los para viverem uma vida mais digna.
O tempo passou, fiquei rico, muito trabalho e me esqueci completamente minhas raízes. Aí,chorei de remorso e resolvi voltar a minha pequena cidade onde enterrei na minha prepotência minha família que só queria nos ver juntos.
Uma dor forte "bateu" no meu coração e o remorso corroía meus sonhos, era raro o dia que conseguia dormir, precisava, então de drogas para relaxar.
Um dia resolvi voltar à minha cidadezinha e, com meu motorista dirigindo meu carrão fui visitar minha família. Foram horas de viagem até que chegamos e na entrada da cidade vimos uma placa muito grande e nela escrita: cidade muda. Fiquei intrigado, pois esse não era o nome da minha cidadezinha, mas adentramos a ela. Meus olhos caíam lágrimas quentes e um nó ardia minha garganta: na cidade não morava ninguém, houve uma praga e muitos morreram e outros fugiram.
Sabia onde ficava a minha antiga casa, quando cheguei lá estremeci, o barraco estava quase todo no chão...Ah! Como chorei.
Fui um filho ingrato e hoje sofro a dor da saudade da minha família que coloquei em segundo plano, o dinheiro me cegou.
Quando estava já de partida, pois na cidade não havia ninguém, alguém gritou meu nome: Lucas, Lucas...O motorista parou o carro e vi um jovem semelhante a minha imagem.
Quis descer do carro, sabia que era meu irmão e ele não deixou: pegamos uma doença contagiosa e só eu fiquei e estou morrendo aqui, perdendo a cada dia pedaços dos meus sonhos, mas eu consegui ser pintor e vou lhe entregar o quadro que pintei da nossa mãe, pegue o quadro  com uma luva e depois o leve para desinfetar...Siga em frente, não olhe pra trás e a primeira casa toda arrebentada era a nossa casa, pegue o quadro para nunca esquecer que teve uma família que o amou mesmo estando ausente e sem notícias.
Adentrei a casa peguei o quadro que estava pendurado na parede e parti aos prantos...
O dinheiro traz luxo, mas hoje não consegue trazer de volta minha família que me amou e eu vou me encontrar com ela de um modo terrível: o remorso. 
Como era linda e sofrível minha mãezinha....

Johannes Verneer

Lua Singular

13 comentários:

  1. Uma linda história e bem emocionante.
    Adorei amiga Dorli.
    bjs-Carmen Lúcia

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  2. Que coisa magnífica? Que satisfação ver novamente tuas postagens. Através de outro blog, nem sei qual, vi a referência ao teu e aqui estive.
    Beijos, Dorli.

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  3. Triste e intensa história de quem fez a família sofrer! bjs., chica

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  4. Linda historia .... é real ou fictícia? É emocionante!

    Beijinhos e força.

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    1. Crônica é um relato verídico, mas quem me contou foi minha avó.
      Beijos
      Lua Singular

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  5. Emocionante, quem não fez isso de uma dia deixar a família para ganhar a vida uns voltam enquanto outros se perdem no tempo. Mas nunca é tarde para voltar.
    Bjos tenha uma ótima sexta.

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  6. Querida amiga

    A vida escreve belas histórias.
    Tristes as vezes,
    porém não menos sábias...
    Não se pode mudar o passado,
    mas pode se corrigir o presente.

    Que ainda haja estrelas em seu coração,
    é o que deseja minha vida para a tua.

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  7. Bom dia
    Um grito comum nestes dias em que o brilho do ouro cega as pessoas. Todo o ser humano deve ter sonhos e lutar por eles mas nunca esquecer o que é fundamental e o principal da sua vida.
    Muitos correm apenas por dinheiro e no fim tem dinheiro mas já não tem saúde para viver

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  8. As vezes largamos tudo pra correr atrás de um sonho nosso. Aí esquecemos da família pq achamos que seria um fardo.

    gostei desse texto.

    brendovieira.blogspot.com

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  9. Que lindo... é a história de tantos nesta vida!
    Amei amiga!
    Beijos, é um dia repleto de bençãos!
    Mariangela

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  10. Feliz por vc ter voltado.
    Ingratidão é a pior coisa, ainda mais qdo vem de gente amamos. Imagino a tristeza de uma mãe ao ver o filho partindo e se esquecendo dela com o tempo... qta tristeza.

    bjokas =)

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  11. Oi Dorli, muito bom ver vc voltando. Muito bom mesmo. Bjs

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  12. Emocionei-me, que história mais linda! uma grande lição.
    Bjs

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