Vivo só, ou melhor, só é um modo de falar, pois tenho meu cachorrinho que me faz companhia o dia todo.É meu companheiro nas horas de solidão. Tive uma vida glamorosa como estilista de modas. Tinha meu ateliê numa rua principal da capital paulista, um marido empresário e uma filha que estudava nos Estados Unidos, hoje bem casada e com filhos maravilhosos, meus queridos netos que em todos os natais vêm me visitar aqui no Brasil.Meu esposo se foi há dez anos.
Não tenho mais idade para tocar um ateliê, mas costumo fazer algumas costuras para as vizinhas do bairro. Não muito, pois gosto de ler, ouvir música clássica que sempre foi a minha paixão e de meu amor. Ele sentado num enorme sofá, eu me aconchegava em seu colo. Que delícia! Suas mãos deslisava meu rosto e ombros com carinho e me beijava com doçura. Dormia. As músicas ainda tocavam baixinhas, pois ele colocava vários discos na vitrola; acordava suavemente com seu toque sutil e íamos dormir.
Minha casa é simples, pequena, mas tem o estilo clássico dos tempos de outrora. Não perdi minha elegância, pois era um dos adjetivos que meu amor gostava de ver em mim. Às vezes, penso que ele está trabalhando, tamanha era a nossa afinidade. Deixo minha sala de costura, preparo um almoço bem caprichado e seu prato sempre fica debruçado à mesa, sua taça de cristal e sua garrafa de vinho tinto envelhecido e espumante. Tomo um pouquinho como que querendo fazer-lhe companhia, é uma sutil harmonia que paira no ar.
Sou uma mulher de sorte, apesar de ter só o estilo, pois o dinheiro quase todo foi gasto na tentativa de deixá-lo aqui comigo. Foi-se o dinheiro e também meu companheiro, sinto muitas saudades dele, mas tenho que viver, pois meu tempo aqui na Terra ainda não acabou e consegui durante minha vida conquistar muitos amigos que estão sempre aqui à me fazerem companhia. Também saio na companhia deles quando tem uma boa peça teatral ou algum concerto musical.
Eu aceito tudo que é natural na vida e você aí garotinha de vinte anos, porque perdeu o namorado, pragueja ou quer se suicidar? Tenta você viver cinquenta anos de felicidades e dez anos de solidão...Será que você aguentaria? Só aguenta quem tem sabedoria dos percalços que temos que passar na vida.E temos, a todo instante, agradecer ao Pai.
Dorli
Silva Ramos



